SOBRE O RPG DE “O ALIENISTA”…

Car@s, quebrei a cuca tentando bolar uma estória que rendesse algum desenvolvimento em aula. Não consegui ainda. Estou abertíssimo a sugestões. Abaixo, algumas ideias quesurgiram, mas muito desconcatenadas, nem sei se dá para entender a sugestão do propósito.

*

RPG O ALIENISTA

 

PERSONAGENS (três primeiros retirados de “Aquarelas”)

 

MESTRE – SIMÃO BACAMARTE, no alto de seu império sobre Itaguaí

 

a) o fanqueiro literário – aquele que escreve elogios nos jornais para quem lhe pagar mais.

 

b) o parasita da mesa – aquele que frequenta uma casa onde almoça diariamente, retribuindo com atenções aos que o recebem.

 

c) o empregado público aposentado – é patriota, adora os jornais e, nos saraus, gosta de jogar baralho.

 

d) “feiticeira” – escrava de mais de 80 anos de idade, acumulou durante a vida as funções de rezadeira e parteira em Itaguaí

 

e) jovem médico – formado na Europa e recém-chegado ao Brasil [assistir ao começo do “Caso Especial – O Alienista”]

 

f) D. Evarista (= mulher de “O Bote de Rapé”)

 

g) boticário Crispim Soares

 

f) Padre Lopes

 

g) barbeiro Porfírio

 

 

*

 

1) INTRODUÇÃO

 

MACHADO DE ASSIS. Crônica de 31 de maio de 1896 (A Semana)

 

A fuga dos doudos do Hospício é mais grave do que pode parecer à primeira vista. Não me envergonho de confessar que aprendi algo com ela, assim como que perdi uma das escoras da minha alma. Este resto de frase é obscuro, mas eu não estou agora para emendar frases nem palavras. O que for saindo saiu, e tanto melhor se entrar na cabeça do leitor.

Ou confiança nas leis, ou confiança nos homens. Era convicção minha de que se podia viver tranquilo fora do Hospício dos Alienados. No bond, na sala, na rua, onde quer que se me deparasse pessoa disposta a dizer histórias extravagantes e opiniões extraordinárias, era meu costume ouvi-la quieto. Uma ou outra vez sucedia-me arregalar os olhos, involuntariamente, e o interlocutor, supondo que era admiração, arregalava também os seus, e aumentava o desconcerto do discurso. Nunca me passou pela cabeça que fosse um demente. Todas as histórias são possíveis, todas as opiniões respeitáveis. Quando o interlocutor, para melhor incutir uma ideia ou um fato, me apertava muito o braço ou me puxava com forca pela gola, longe de atribuir o gesto a simples loucura transitória, acreditava que era um modo particular de orar ou expor. O mais que fazia, era persuadir-me depressa dos fatos e das opiniões, não só por ter os braços mui sensíveis, como porque não é com dous vinténs que um homem se veste neste tempo.

Assim vivia e não vivia mal. A prova de que andava certo, é que não me sucedia o menor desastre, salvo a perda da paciência, mas a paciência elabora-se com facilidade; — perde-se de manhã, já de noite se pode sair com dose nova. O mais corria naturalmente. Agora, porém, que fugiram doudos do hospício e que outros tentaram fazê-lo (e sabe Deus se a esta hora já o terão conseguido), perdi aquela antiga confiança que me fazia ouvir tranquilamente discursos e notícias. É o que acima chamei uma das escoras da minha alma. Caiu por terra o forte apoio. Uma vez que se foge do hospício dos alienados (e não acuso por isso a administração) onde acharei método para distinguir um louco de um homem de juízo? De ora avante, quando alguém vier dizer-me as cousas mais simples do mundo, ainda que me não arranque os botões, fico incerto se é pessoa que se governa ou se apenas está num daqueles intervalos lúcidos, que permitem ligar as pontas da demência às da razão. Não posso deixar de desconfiar de todos.

A própria pessoa, — ou para dar mais claro exemplo, — o próprio leitor deve desconfiar de si. Certo que o tenho em boa conta, sei que é ilustrado, benévolo e paciente, mas depois dos sucessos desta semana, quem lhe afirma que não saiu ontem do Hospício? A consciência de lá não haver entrado não prova nada; menos ainda a de ter vivido desde muitos anos, com sua mulher e seus filhos, como diz Lulu Sênior. É sabido que a demência dá ao enfermo a visão de um estado estranho e contrário à realidade. Que saiu esta madrugada de um baile? Mas os outros convidados, os próprios noivos que saberão de si? Podem ser seus companheiros da Praia Vermelha. Este é o meu terror. O juízo passou a ser uma probabilidade, uma eventualidade, uma hipótese.

 

 

— SITUAÇÃO INICIAL: não se sabe mais quem é louco e quem é são. Os personagens devem conseguir ‘provar’ que são sãos e, portanto, não precisam ser recolhidos à Casa Verde. O Alienista não é louco (conforme início do filme abaixo)

A ‘nova’ teoria de Bacamarte é prender todos os habitantes na Casa Verde, e soltá-los apenas à medida em que forem conseguindo provar que não estão loucos.

 

2) Filme “Caso Especial – O Alienista (1993)” https://www.youtube.com/watch?v=Cu7QifQPrgc

 

 

3) Conto “Uma Visita de Alcibíades”

 

 

4) Machado de Assis. Crônica de 10 de março de 1895 (A Semana)

 

A autoridade recolheu esta semana à detenção duas feiticeiras e uma cartomante, levando as ferramentas de ambos os ofícios. Achando-se estes incluídos no código como delitos, não fez mais que a sua obrigação, ainda que incompletamente.

A minha questão é outra. As feiticeiras tinham consigo uma cesta de bugigangas, aves mortas, moedas de dez e vinte réis, uma perna de ceroula velha, saquinhos contendo feijão, arroz, farinha, sal, açúcar, canjica, penas e cabeças de frangos. Uma delas, porém, chamada Umbelina, trazia no bolso não menos de quatrocentos e treze mil-réis. Eis o ponto. Peço a atenção das pessoas cultas.

Nestes tempos em que o pão é caro e pequeno, e tudo o mais vai pelo mesmo fio, um ofício que dá quatrocentos e treze mil-réis pode ser considerado delito? Parece que não. […]

 

 

5) Machado de Assis (“Lélio”). Crônica de 23 agosto de 1884 (Balas de Estalo)

 

Anda nos Jornais, e já subiu às mãos do Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, uma representação do Clube ou Centro dos Molhadistas contra os falsificadores de vinhos. Trata-se de alguns membros da classe que, a pretexto de depósito de vinhos, têm nos fundos da casa nada menos que uma fábrica de falsificações. Segundo a representação, os progressos da química permitem obter as composições mais ilusórias, com dano da saúde pública.

Ou me engano, ou isto quer dizer que se trata de impedir a divulgação de certa ordem de produtos, a pretexto de que eles fazem mal à gente. Não digo que façam bem; mas não vamos cair de um excesso em outro. […]

 

6) Machado de Assis. O Alienista.

 

Três meses depois efetuava-se a jornada. D. Evarista, a tia, a mulher do boticário… [cap. 3]

A esposa [do boticário], senhora máscula, amiga particular de d. Evarista… [cap. 8]

A proposta [isto é: tendo sido a mulher do boticário encarcerada, o alienista ofereceu a Crispim que dormisse à noite na Casa Verde] colocou o pobre boticário na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar à Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que d. Evarista o tirou da dificuldade, prometendo que se incumbiria de ver a amiga… [cap. 12]

Quanto à senhora do boticário, não ficou muito tempo na célula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos. [cap. 13]

 

7) A chegada da medicina e dos médicos urbanos, que acaba eclipsando a figura do “médico” rural, função que normalmente era exercida pelo padre ou pela avó, que conhecia as plantas e os chás curativos. Os novos médicos, formados na Europa, vieram substituir essas tradições. O século XIX foi marcado pelo positivismo, pelo racionalismo, pela adoção irrestrita da ciência em lugar dos saberes tradicionais. Assim, assistimos às “reformas sanitárias” (além das pedagógicas), que vão fazer parte de um processo de normalização, efetuado pela medicina higienista. Era o começo da modernização do país.

A preocupação com a saúde pública inexiste na época colonial. O Estado interferia, na época colonial, aplicando ações punitivas, através de instrumentos jurídicos. A medicina colonial não pretendeu nunca, como fará a do XIX, “organizar medidas de controle do espaço social para criar melhores condições de saúde ou destruir o que poderia ser causa de doença. Não existe o planejamento da saúde da população”, como fariam depois os médicos higienistas.

Há uma dissociação entre o saber e o poder médicos, já que seu poder é somente jurídico. A prova para ser médico dependia apenas da apresentação de cartas, juramentos, testemunhos, assinaturas, e o candidato a médico não era avaliado pelo seu conhecimento. Sendo assim, o corpo dos médicos não produzia nenhum saber médico, apenas servia para fiscalizar e aplicar as punições que vinham já ordenadas pelo Estado (por exemplo, contra aqueles que exerciam a medicina sem o aval do Imperador…). (adaptado de MURICY, Kátia. A razão cética.)

 

8)

“Ela [a ciência médica] organizará, então, o espaço das instituições: o hospital, a escola, a fábrica, a prisão e até o bordel, que serão fiscalizados agora pelo olhar médico. A esse processo é que damos o nome de normalização da sociedade, uma preocupação em controlar a sociedade, devido ao potencial perigoso que possui em relação à saúde da população, que fica então submetida ao Saber do médico, que assim torna-se então um novo Poder. Esse novo Poder nascente, propõe-se a organizar a população de forma positiva, e, além disso, a controlar politicamente, de forma contínua, indivíduos e coletividade.” (FOUCAULT. Vigiar e punir)

 

8) “A etimologia de medicina é, como acontece com outras palavras, uma lenda.

Conta-se que, no tempo do rei Numa, o corpo médico era composto unicamente de coveiros, regidos por um coveiro-mor, chamado Cina.

Adoecia um romano, iam os coveiros à casa do doente medir-lhe o corpo para abrir a sepultura.

– Mediste, Caio? – pergunta o chefe.

– Medi, Cina – respondia o coveiro.”

(MACHADO DE ASSIS. Semana Ilustrada, 03/11/1872)

 

9) “O Bisturi de amputação, fulgurando por um momento sobre a cabeça do operador, mergulhou no membro, e com um golpe artístico de lado a lado completou uma amputação circular. Após vários giros aéreos, a lâmina cortou o osso como se movida a eletricidade. A queda da parte amputada foi recebida com aplausos tumultuosos pelos excitados estudantes. O operador agradeceu o cumprimento com uma vênia formal.” (BUCK-MORSS. Estética e anestética.)

 

9)

“Eu diagnostico uma baquites. Concebe-se perfeitamente que as etesias desenvolvidas pela decomposição dos éteres espasmódicos e engendrados no alambique intestinal, uma vez que a compressão do diafragma lhes cause vibrações simpáticas que os façam caminhar pelo canal colédoco até o periósteo dos pulmões…

“- C’est trop fort!…

“- Daí, passando à garganta, perturbam a quimificação da hematose, que por isso se tornando em linfa hemostática, vá de um jacto causar um tricocéfalo no esfenóide, podendo mesmo produzir uma protorragia nas glândulas de Meyer, até que, penetrando pelas câmaras ópticas, no esfíncter do cerebelo, cause um retrocesso prostático, como pensam os modernos autores, e promovam uma rebelião entre os indivíduos cerebrais: por consequência isto é nervoso.

“- Muito bem concluído.

“- O tratamento que proponho é concludente: algumas gotas de éter sulfúrico numa taça do líquido fontâneo açucarado; o cozimento dos frutos do coffea arabica torrados, ou mesmo o thea sinensis; e quando isto não baste, o que julgo impossível, as nossas lancetas estão bem afiadas e duas libras de sangue de menos não farão falta à doente.

“- Como ele fala bem! murmurou uma das moças.”

(MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha, cap. XIII)

 

10)

A CARTOMANTE

 

Lima Barreto

 

Não havia dúvida que naqueles atrasos e atrapalhações de sua vida, alguma influência misteriosa preponderava. Era ele tentar qualquer cousa, logo tudo mudava. Esteve quase para arranjar-se na Saúde Pública; mas, assim que obteve um bom “pistolão”, toda a política mudou. Se jogava no bicho, era sempre o grupo seguinte ou o anterior que dava. Tudo parecia mostrar-lhe que ele não devia ir para adiante. Se não fossem as costuras da mulher, não sabia bem como poderia ter vivido até ali. Há cinco anos que não recebia vintém de seu trabalho. Uma nota de dois mil-réis, se alcançava ter na algibeira por vezes, era obtida com auxílio de não sabia quantas humilhações, apelando para a generosidade dos amigos.

Queria fugir, fugir para bem longe, onde a sua miséria atual não tivesse o realce da prosperidade passada; mas, como fugir? Onde havia de buscar dinheiro que o transportasse, a ele, a mulher e aos filhos? Viver assim era terrível! Preso à sua vergonha como a uma calceta, sem que nenhum código e juiz tivessem condenado, que martírio!

A certeza, porém, de que todas as suas infelicidades vinham de uma influência misteriosa, deu-lhe mais alento. Se era “coisa feita”, havia de haver por força quem a desfizesse. Acordou mais alegre e se não falou à mulher alegremente era porque ela já havia saído. Pobre de sua mulher! Avelhantada precocemente, trabalhando que nem uma moura, doente, entretanto a sua fragilidade transformava-se em energia para manter o casal.

Ela saía, virava a cidade, trazia costuras, recebia dinheiro, e aquele angustioso lar ia se arrastando, graças aos esforços da esposa.

Bem! As cousas iam mudar! Ele iria a uma cartomante e havia de descobrir o que e quem atrasavam a sua vida.

Saiu, foi à venda e consultou o jornal. Havia muitos videntes, espíritas, teósofos anunciados; mas simpatizou com uma cartomante, cujo anúncio dizia assim: “Madame Dadá, sonâmbula, extralúcida, deita as cartas e desfaz toda espécie de feitiçaria, principalmente a africana. Rua etc.”.

Não quis procurar outra; era aquela, pois já adquirira a convicção de que aquela sua vida vinha sendo trabalhada pela mandinga de algum preto mina, a soldo do seu cunhado Castrioto, que jamais vira com bons olhos o seu casamento com a irmã.

Arranjou, com o primeiro conhecido que encontrou, o dinheiro necessário, e correu depressa para a casa de Madame Dadá.

O mistério ia desfazer-se e o malefício ser cortado. A abastança voltaria à casa; compraria um terno para o Zezé, umas botinas para Alice, a filha mais moça; e aquela cruciante vida de cinco anos havia de lhe ficar na memória como passageiro pesadelo.

Pelo caminho tudo lhe sorria. Era o sol muito claro e doce, um sol de junho; eram as fisionomias risonhas dos transeuntes; e o mundo, que até ali lhe aparecia mau e turvo, repentinamente lhe surgia claro e doce.

Entrou, esperou um pouco, com o coração a lhe saltar do peito.

O consulente saiu e ele foi afinal à presença da pitonisa. Era sua mulher.

 

11)

CARTAS NA MESA

 

Guimarães Rosa

 

Toda vida humana é destino em estado impuro. A mulher de novo baralhou e foi compondo na toalha, lâmina a lâmina, os 22 arcanos do Tarô – dito o livro revelador, de páginas soltas, que os ciganos trouxeram do Egito. A estrela, o imperador, a roda-da-fortuna, o diabo, por exemplo. – “Não entendo, não percebo” – tugiu, e juntou as mãos, grossas curtas, bem brancas: o consultante observando-a com ar de aluno. – “Salve-me, mas depressa. Acho que vou crer na senhora.” Ele respirou, boca aberta, espírito aspérrimo. Endireitou-se a cartomante; um pouco impressionava, quando cerrados os olhos de ave noturna, o ypsilone do nariz e sobrancelhas. – “Ao senhor, não engano…” Mais amadora que charlatã. – “A predição é dom, não ciência ou arte. Vem quando vem. A hora não é boa…”

– “Sei. Segue-me um homem armado, doido de ciúme e ódio. Decerto me viu entrar e espera lá fora.” – “Une marido.?” Madame de Syaïs outra vez misturava as cartas, mais digna, menos ágil. – “Verei. Distrair-se do assunto. Concentremo-nos.” Ele quis, agora era quem guardava os olhos; soletrava-lhe confiança a voz, impessoal humaníssima. – “Deus nos dê luz…” Virou o bobo, o mago, o enforcado, a lua, a torre e a temperança. – “As figuras desdizem-se! Nada acusam…” – ela mesma se afastava. – “Tudo, mal para saber o futuro imediato… maluco ou sinistro” – ele se forçava a rir, não trazendo à testa os punhos, um instante sucumbido. A morte, o sol, o dia-de-juízo. A mulher também mordeu beiço, de pena e brio. – “Com o baralho comum, não as do tarô, quem sabe… Vale é o intuir, as cartas são só para deter a atenção.”O moço aprontou-se a ver. Tão logo a tentativa desnorteava-se. Espiavam nos naipes sutil indecifrar-se: de como por detrás do dia de hoje estão juntos o ontem e o amanhã. A adivinhã cruzou os braços.

Descruzando as pernas : – “A gente vive é escrevendo alguma bobagem em morse” – Ladal levantou-se. – “Vou procurá-lo! Talvez eu nem me defenda…” – toou o que disse, com imperfeita altivez. Mirou-o a mulher desfechadamente: – “O senhor pede presságio ou conselho? E acerta. Sempre o que importa é viver o minuto legítimo.” Tornava a mexer as cartas coloridas. – “Nem tanto, Madame, nem tanto…” – escarniu-se. Mas esperou. Seu rosto parecia mais uma fotografia. – “Detesta esse homem?” – “Não.” – “Não o enfrente” – com vigor e veludo. A magia – o carro, a justiça, a grã-sacerdotisa. – “Teme?” A tentação – sendo o amor; o mundo, a força, o hierofante. – “Sua mente abrange previsões e lembranças, que roçam a consciência. Prefere não agir: evita novos efeitos, pior karma.” Ele nem teve de sorrir, depois de meneios com a cabeça. – “Seu destino já se separa do outro. A isso, sem saber, ele reage, estouvado, irrompente aproximando-se.” A sabedoria – o eremita. A imperatriz, que pinta a natureza. – “Algo pode ainda obvir, o mau saldo…” Ostentadas as íris claras. – “Fique. O tempo vale, ganhe-o. O tempo faz. O tempo é um, dogma…” Ladal curvou-se. – “Tomo seu moscatel, não sua filosofia. Sou um néscio.” Meio mais tranqüilo.

Ele falava (ela respondendo): Aconteço-e-faço? (Reze.) Que jeito? (Pare de pensar em seu problema – e pense em Deus, invés.) E lá creio? (Não é preciso.) Sem treino nem técnica? (Deus é que age. Dê a ele lugar, apenas. Saia do caminho.) Como? (Não forme nenhuma imagem. Tome-se numa paz, por exemplo, alegria, amor – um mar – etcétera. Deus é indelineável.) Teoria? Court de Gébelin? Etteilla? Em que grimório ou alfarrábio? (Emmet Fox. Experimente. Um livrinho de seis páginas.) Renega a kabala então, o ofício de profetisa? (A qualquer giro, a sina é mutável. Deus: a grande abertura, causa instantânea. Desvenda-se nas cartas a probabilidade mais próxima, somente. Respira-se é milagre.) E ele, o outro? É justo? Deus deve ser neutro… ativa neutralidade. Reze, ajudando o outro, não menos. O efeito é indivisível. Tem cada um sua raia própria de responsabilidade. Também o outro é indelineável.) Os termos contrastantes… (Deus – repito, repito, repito! Não pense em nada.) Deram uma única interjeição – trementemente.

Tinia a campainha, da entrada. – “Quem for, esperará, na ante-sala…” Não entreolhavam-se os dois, em titubeio, não unânimes, nos rostos o enxame de expressões. Caluda, já Madame de Syaïs ia colher, à porta do corredor, o cochicho de aviso da criada. Desapontadamente – devia, sim, de ser o outro, de atabalhôo, dando naquele contraespaço.

– “Nada tem a fadar-me. Não há mais o tempo. Há, é o fato!” – e Ladal elevava o copo, feito brinde. Ela ergueu mão: seu cheio feixe de dedos. – “Não. O tempo é o triz, a curva, a curva do acrobata, futuro aberto, o símbolo máximo: o ponto. No invisível do céu é que o mar corre para os rios… Nunca há fatos.” Saída alguma, de escape. Não onde esconder-se. Nem chamar polícia. Tortamente oposto, a três passos, preso, passearia o outro sua carga de amargo. – “Talvez pense que a mulher se encontre aqui…” – “Ou vem à, consulta, simples-mente…” – “O nome é Mallam, Dr. Mallam…” – “Vale que seu seja, de Syaïs, Râ-na-Maga ou Ranamaga?”

Era nem equilíbrio, pingo por pingo, d’ora-agora, o escoar-se. O transprazo. Subiam em si, não ouviam, não viam. Da parede o relógio debruçava-se para bater.

E: oh. O estampido, tiro, na saleta, de evidência dramática. Cá, os dois paravam, sem respiro, não unidos, personagens sem cena. Ladal fez maquinal recuo. Madame de Syaïs emaçou ainda as cartas espalhadas. Um deles então abriu a porta.

Ali dera-se o dar-se-á – remorsivo – visão de tempos não passados. Tombado no chão, mais o revólver, amarrotava-se morto o outro, o peito em rubro e chamusco – que nem o mago, o diabo, o bôbo – ele mesmo por si rejeitara-se, irresolvidamente, sem fim, de história e trapalhada. Quase o choravam, em atitude insuficiente.
(Pulso, 8 de janeiro de 1966

João Guimarães Rosa – Ave, palavra)

 

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