SEMANA 1 – Introdução sócio-histórica

 

 

O plano das primeiras aulas é contextualizar a produção literária de Machado de Assis no período de grandes inovações tecnológicas da segunda metade do século XIX. Partimos de um texto de sua juventude (“O Jornal e o Livro“) em que, num estilo grandiloquente muito diverso daquele seu característico da maturidade, saúda o aparecimento do jornal diário como a expressão máxima da democracia, ao contrário da “discussão pelo livro [, que] esfria pela morosidade, e esfriando decai”. Por isso, para o jovem Machado, deslumbrado, o jornal, “literatura quotidiana”, “invenção moderna”, “é mais que um livro”. Chega mesmo a se perguntar repetidamente: “O jornal matará o livro? O livro absorverá o jornal?”

Passado um século e meio, a dúvida só não soa ingênua porque muitos argumentaram, à época da disseminação massiva da Internet, em meados da década de 1980, que a nova tecnologia iria, mais cedo ou mais tarde, extinguir o livro, e todos leríamos, então, apenas nas telas dos computadores… Para além dos chutes dos futurólogos, interessa mais é perceber como a mudança no meio técnico de produção (a infraestrutura material) afetou de fato a forma mesma de fazer literatura, tanto com o jornalismo no século XIX, como a revolução planetária devida à Internet. Na aula, chegamos a adiantar algumas características que a literatura ‘herdou’ do jornalismo diário na época de Machado: a maior independentização dos capítulos do livro entre si, a conversa do narrador com o(a) leitor(a), os finais de capítulo dos romances originalmente publicados como folhetim, que agora precisam criar uma situação de suspense no enredo a fim de que o leitor tenha o desejo de consumir a próxima edição do jornal para saber como a estória continua… (Assim também, estaremos atentos durante o Curso às possíveis modificações que a internet tem provocado na literatura atual.)

Para ficar no exemplo dos capítulos do livro que ganham maior independência entre si (basta lembramos o Memórias Póstumas de Brás Cubas), vimos como essa mudança pode ter relação com a própria disposição das diversas matérias nas folhas dos jornais. O jornal deixa de ser um conjunto orgânico, coeso, para tornar-se um aglomerado de assuntos díspares colocados lado a lado muitas vezes mais por necessidade da diagramação da página do que em virtude de temáticas afins. As partes, no jornal, tornam-se intercambiáveis, peças de uma máquina. Paralelamente, no mesmo período, potencializado ainda pela recente invenção da anestesia na medicina, o corpo humano também passa a ser explorado como máquina. O trabalho exaustivamente repetitivo nas fábricas, diário, exige mais do que o corpo humano pode dar, e esse corpo começa muitas vezes a falhar e, para que a produtividade não caia, os inúmeros tipos de anestésicos, das drogas químicas que aceleram momentaneamente a capacidade a atenção e os movimentos, ao ópio que era dado cotidianamente às crianças para que se aquietassem e não incomodassem os adultos (função que depois seria exercida pela televisão e hoje pelos computadores).

Assim, neste primeiro post, dado que na aula presencial pudemos apenas conversar sobre “O Jornal e o Livro”, cumpre-me esclarecer ainda que sucintamente a presença desses vários outros textos, tanto de Machado como dos autores anteriores a ele, Bernardo Guimarães e Macedo, ambos normalmente vistos como pertencentes ao nosso Romantismo.

Por ordem de anterioridade, o capítulo indicado de A Moreninha (1844), livro que pessoalmente considero com pouco sal e péssima escolha para vocês trabalharem como professores do Ensino Fundamental e Médio, embora, se lido com atenção ele apresenta com muita leveza alguns hábitos da juventude do século XIX (são hilárias, p.ex., embora verossímeis, as exigências que as personagens femininas fazem a seus pretendentes, os códigos de namoro da época), jogos e brincadeiras, danças de salão etc. Mesmo assim, obrigar adolescentes, que em sua maioria não escolheram fazer da Literatura a sua atividade profissional futura, certamente afugentará os poucos que poderiam até ser simpáticos à opção.

No entanto, A Moreninha tem um capítulo que considero especial. Acontece quando a boa e sóbria escrava Paula, que cuidou da Moreninha do título desde que esta nasceu, afeição que obviamente é retribuída pela heroína, é forçada a entrar em uma brincadeira com um estrangeiro convidado da casa e acaba tendo de beber uma garrafa inteira de aguardente. Passa muito mal mas, como todos na casa sabem que é abstêmia, não conseguem atinar com a origem da moléstia. Nesse ponto, todos os personagens, no intuito de ajudar, recomendam os mais bizarros tratamentos, caricaturas de conselhos da sabedoria popular. Ora, como é um romance da época do Romantismo, estão presentes à reunião os quatro jovens galãs que, por acaso, são estudantes de Medicina. Ouvindo tais disparates, reúnem-se só eles num canto da sala, cientes de que Paula está apenas embriagada, e resolvem, com a aval de seu saber científico, competir entre si para ver quem conseguiria dar, para os presentes, o diagnóstico e o tratamento da doença da escrava da forma mais absurda, ainda que dizendo a verdade. Assim, cada um dos estudantes profere um discurso completamente hermético para a audiência que, é claro, não entendia patavinas (uma até disse que não tinha entendido o que o doutor falara, mas que ele falou muito bonito…). Começa aí, por Macedo, a ridicularização do saber médico, desses jovens recém-formados muita vez em Portugal ou mesmo Paris, que retornavam ao Brasil com um diploma e nenhuma experiência de vida. A disputa entre esses rapazes presunçosos que representavam o progresso, a modernidade, de um lado, e os detentores dos saberes tradicionais, os vigários, as raizeiras, de outro, atravessará o século inteiro, com os segundos cada vez mais perdendo seu status na sociedade, identificados agora com um Brasil arcaico, rural, atrasado, quando a moda mandava, especialmente a partir dos meados do século XIX, que o país de modernizasse, se afastasse da herança portuguesa, que tinha muito de oriental, e fosse na direção do progresso, do futuro, simbolizado então na adoração pela capital do Ocidente, a Cidade-Luz: Paris.

Só assim conseguimos compreender algumas crônicas de Machado, por exemplo, quando ele defende o direito de uma mulher detentora de um saber tradicional, mas não formada em Medicina, o direito dela de atender os pacientes que confiavam muito mais nela do que nos bacharéis recém-chegados da Europa. O problema era que o Estado brasileiro legislava, criando leis que proibiam a prática do ‘curandeirismo’, como era chamado. Ao defender o direito da curandeira de exercer a sua arte, Machado não está sendo saudosista, como já foi interpretado durante muito tempo. Pelo contrário, ele está utilizando esse caso para alegorizar a profunda desconfiança que possuía naquilo que era e é chamado o ‘progresso’, especialmente o do positivismo científico e, seu representante máximo naquele Brasil moderno que começava a surgir para gáudio das elites. (Um parênteses famoso dentro da história da crítica sobre a acuidade que Machado conseguiu alcançar na época: como é que o Brasil podia se vangloriar de estar entrando na modernidade, tomando a França como modelo, copiando seus vestidos, seus chapéus, sua moda, se metade da população do país era de escravos? Que modernidade é essa, que consegue conviver cotidianamente com a instituição mais indigno e mais nefasta da história da humanidade? Esse paradoxo, o país que se vê como moderno mas sua economia é toda fruto da mão-de-obra escrava, é uma das melhores caracterizações do Brasil, até hoje) Esse representante máximo da ciência positivista, do Poder que o suposto Saber que essas pessoas privilegiadas lhes outorgava, um dos grandes inimigos de Machado, será o médico higienista, aquele cidadão que está acima de todos os demais, inclusive do Poder Público, como é cabalmente descrito em O Alienista.

Dando sequência à breve descrição dos textos que foram postados nesta página da primeira semana de aula, retomemos a analogia entre a independência das partes do jornal (em relação ao livro, orgânico) e a transformação do corpo humano em máquina, para atender a velocidade sempre crescente das linhas de montagem de mercadorias na fábrica. Nosso corpo começa a deixar de ser um todo único, para ser somente um aglomerado de partes destacáveis e manipuláveis. No limite, substituíveis. E o reflexo desse processo está espelhado na literatura. Também um pouco antes da época de Machado, Bernardo Guimarães, o autor de A Escrava Isaura mas que fazia também poemas satíricos, escreveu em 1858, um poema louvando o nariz, que ele dizia nunca ter merecido a atenção de poeta nenhum até então. Ainda muito timidamente, um órgão humano começava a se descolar do restante do corpo. É a estória de O Nariz Perante os Poetas. Mas um ápice dessa nova forma de nos relacionarmos com nosso próprio corpo é conquistado na pequena peça teatral em verso chamada O Bote de Rapé, de 1878. Nela, Machado faz com que o nariz do personagem Tomé assuma independência e mesmo dialogue com seu ‘dono’. Não à toa, o personagem Nariz está em desespero cobrando de Tomé a caixinha com pó de rapé, então vendido nas tabacarias e que funcionava como perfeito anestésico, pois após a inalação de uma pequena pitada do pó, a pessoa sofria uma crise de espirros, que ajudavam a descarregar toda a tensão do cotidiano, fazendo o usuário sentir-se relaxado. A graça de Machado é mostrar Tomé (e seu Nariz) completamente viciado no rapé, sendo criticado por sua esposa Elisa, que tenta a todo custo trocar a dependência de rapé do marido por uma outra, mais elegante, como o charuto. Não se fala em tratar o vício, em curá-lo, apenas em substituir uma substância pela outra. E o desfecho da peça é também muito significativo, pois Elisa, a esposa, que abominava o rapé, não fumava charuto, revela-se como a mais adicta de todos: seu vício é o consumo de mercadorias. Quando vai à cidade, compra tantas e tantas coisas, que esquece do marido, e do único pedido que havia feito a ela: a pequena caixinha de rapé.

Também em Memórias Póstumas de Brás Cubas o nariz está bastante presente. São mais de dez  referências significativas ao nariz. Uma das mais curiosas é o capítulo intitulado exatamente “A Ponta do Nariz“, que teremos a oportunidade ainda de trabalhar nas próximas semanas.

Quanto à “Advertência” do livro de contos Papeis Avulsos, cujo primeiro conto é logo “O Alienista”, esforça-se Machado, nas primeiras linhas, para, de certa forma, denegar o próprio título, e vendê-lo como o que seria um livro orgânico: “Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.” No entanto, mantém o título, que diz tudo.

Por fim, um poema e uma gravura que testemunham o “Dilúvio de Papel” que os brasileiros experimentavam no período, graças à profusão maciça e inédita de textos escritos, especialmente nos jornais. No poema, Bernardo Guimarães é literalmente inundado pelas folhas cotidianas, que abarrotam o seu quarto de estudos. Na gravura, do artista Ângelo Agostini (na capa do post), feita já mais perto da virada do século, há dois Dom Quixotes: à esquerda, o original, de Cervantes, assombrado pelas fantasias que colhia nos livros de cavalaria, as princesas precisando de socorro, os gigantes etc. Tudo fruto da sua imaginação desregrada. Já no lado direito da gravura, temos o “Nosso Dom Quixote”, em desespero devido à quantidade gigantesca de catástrofes e injustiças reais que os jornais diariamente despejam sobre seus incautos leitores, um mundo onde a tragédia é a regra cotidiana, e não há nada que o cavaleiro andante possa fazer para minorar tanto e tão vário sofrimento.

(DLS)

 

TEXTOS DE MACHADO DE ASSIS

o jornal e o livro (1859)

balas de estalo (crônica) e quincas borba (romance)

o bote de rapé (1878)

papeis avulsos (1882) [apenas o primeiro parágrafo da “Advertência”]

memórias póstumas de brás cubas (1881) [capítulo “A Ponta do Nariz”]

 

BERNARDO GUIMARÃES

o nariz perante os poetas (1858)

dilúvio de papel [p.24-41]

 

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

a_moreninha (1844) [capítulo 13, “Os quatro em conferência”]

 

 

 

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