AULA 20 (30/04) – ANDRÉ SANT’ANNA (2) – QUESTÕES SOBRE “O PARAÍSO É BEM BACANA”

1) Compare os títulos dos romances Hosana na Sarjeta e O Paraíso É Bem Bacana (PBB).

Ambos remetem ao universo religioso de forma crítica, embora com estratégias diferentes: o de Mirisola carnavaliza o alto, jogando-o para o mais baixo; o de Sant’Anna, através da ironia de um Paraíso que se revela infernal durante a leitura do romance.

2) Que relação pode ser estabelecida entre o atentado terrorista praticado por Mané e a linguagem do romance?

A linguagem praticada por Sant’Anna, especialmente nas partes em que o narrador é o Mané, não deixa de ser também um atentado terrorista à literatura como ‘belas-letras’, através do que anteriormente denominamos ‘infraliteratura’.

3) A fala do narrador de PPB se distingue, formalmente, da fala dos personagens?

A princípio, tinha pensado que não haveria uma distinção tão grande, formalmente, entre as instâncias: todo o texto, para mim, soava, se não uniforme, pelo menos no mesmo registro de uma oralidade muito distante da norma padrão, tornando tanto as intervenções do narrador (e sua acentuada recorrência de palavrões) como a fala dos personagens, em especial a do Mané, um português bastante estropiado. Os alunos, no entanto, perceberam diferenças entre o texto do narrador e o das personagens, argumentando que a linguagem do narrador, por exemplo, apesar dos palavrões, não comete os erros gramaticais peculiares dos personagens, com o que tive de concordar, obrigando a rever a base da próxima questão.

4) A partir da resposta anterior, compare o texto de PBB com o texto de Grande Sertão: Veredas, a partir das estratégias utilizadas por cada um para representar a oralidade na escrita.

5) Tomando como definição do conceito de Realismo uma “pretensa imitação da realidade, tendendo a ocultar o objeto imitante em proveito do objeto imitado” (COMPAGNON, 2001, p. 106)[1], leia o fragmento abaixo, de Ferréz, e indique, entre ele e André Sant’Anna, qual deles deve ser mais ‘realista’, nesse sentido. A seguir, com o mesmo critério, compare os dois com Daniel Galera e Marcelo Mirisola, aproximando ou afastando os quatro autores entre si.

Os inimigos não levam flores

Ferréz

“Tá o maior calor, tô até lembrando quando trabalhava no padrão de lanches americanos que esses playboys consomem lá do Shopping Ibirapuera, burguesia filha da puta, não podia nem encostar a mão nos pães, contaminava, é o que diziam, e eu cuspia a todo momento em tudo, o maluco ficava moscando, escolhendo o lanche, beijando a mina dele, e eu cuspindo no hambúrguer, passando o queijo geladinho na testa antes de colocar na chapa, até na merda do milk shake eu cuspi, era satisfação maloqueira garantida.

“Porra! Tô viajando, tenho que tá concentrado, quem tá subindo? Porra, num conheço aquele carro, é sempre assim, nessas horas tem que ser ligeiro, a porra dos malote tá dividido, falta contar o dinheiro, num conheço essa porra de quadrilha direito, tem mano que num confio nem fudendo, minha mãe disse que hoje ia ser foda o dia, parece aviso, tô no maior calor, vou ligar o Tatá pra ver se ele tá chegando, se pá é o único que eu conheço de verdade nessa porra toda, mas das trairagem nem Jesus escapou, com certeza nem Deus confia nos amigos, se tiver um, nunca ouvi falar em amigo de Deus.

                […]”

O objetivo da questão era afastar de André Sant’Anna o conceito de ‘realismo’, tal como definido acima. Nesse sentido, a linha que iria do mais realista ao menos realista teria como polos Ferréz (claramente realista) e Sant’Anna, estando Galera mais próximo do primeiro, e Mirisola perto de Sant’Anna.

Obviamente, nada é tão simples, e esta é somente uma possibilidade esquemática de leitura, dentre outras. Temos, inclusive, tentado demonstrar como o próprio Galera, ao menos em Meia-Noite e Vinte, não praticaria o realismo já detectado em seus livros anteriores, devido ao forte trabalho com a linguagem presente no romance inteiro. Assim como, apesar de, ou através das inusitadas associações de elementos de universos díspares, o efeito criado por Mirisola, por mais inverossímil o enredo, não deixa de ser assustadoramente realista.

6) A partir da resposta anterior, explique por que PBB deve pertencer ao grupo de textos que praticam a performance na escrita, e não daqueles, mais tradicionais, que buscam a representação de uma realidade?

7) Como podemos associar a repetição como procedimento performático do texto a uma crítica à sociedade do espetáculo e à mídia em geral?

8) Comparados a Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera, PPB e os contos de André Sant’Anna podem ser sentidos como entediantes, devido às exaustivas repetições. Qual o potencial destes textos, no entanto, que aquele não teria, visando uma crítica à sociedade do espetáculo?

9) Por que pode-se dizer que as duas primeiras páginas do romance Sexo, de André Sant’Anna (1999), lidas na aula passada, são uma metonímia do livro inteiro (DIAS, 2001, p. 76)?

10) Por que tanto palavrão em PBB? Isso é novidade na literatura? (Para esta questão, ler o conto “Intestino Grosso”, de Feliz Ano Novo (1975), de Rubem Fonseca)

11) Mané foi definido como “espécie pós-moderna de Macabéa” (DIAS, 2009, p. 157), pelo fato de ambos serem estereótipos. Do quê, cada um deles pode ser estereótipo? Como a alienação dos protagonistas ocorre nesses romances?

[1] Compagnon atribui essa definição de Realismo aos teóricos franceses surgidos na década de 1960 (Foucault, Barthes etc.), mas critica-a por ser, segundo ele, insuficiente.

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