AULA 19 (27/04) – ANDRÉ SANT’ANNA (1)

“A diferença da estratégia performática em relação à representação é que não interessam mais o texto como [1] denúncia da existência de um Outro social miserável ou como [2] garantia de representação por cotas dos excluídos (sejam eles pobres, gays, mulheres…); [3] nem importa a distância do lugar de quem fala (ou a “heterogeneidade radical entre criador e criatura”) e [4] nem mesmo a auto-exposição do processo de construção da história (que garantia a Clarice e a Sérgio Sant’Anna falarem de seus Outros) é recurso mais utilizado.

“A performance quer escrachar com todas essas sutilezas e expor a impossibilidade radical da representação […] Muito próximo da estratégia de Rodrigo S. M. em A hora da estrela, a voz narrativa assume escancaradamente preconceitos a fim de arrevesadamente levar à desconfiança o enredo que encena. A voz narrativa assume também a função de um ventríloquo que se apropria das falas do senso comum e expõe os preconceitos latentes.” (AZEVEDO, “Representação e Performance”)

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Infraliteratura

narrativa mal-escrita de propósito, como contraponto ao beletrismo e à “prosa funcional de mercado”, à “literatura de qualidade”. (ARAÚJO DE SÁ, sobre tendências contemporâneas da literatura na Argentina)

 

“pobreza voluntária da linguagem” (DIAS, p. 10)

“o romance de Sant’Anna [Sexo] materializa o infantilismo das mentalidades heterodirigidas pela ditadura da indústria cultural, em sua banalidade e estereotipia normativa.” (DIAS, p. 11)

“forma de escrever que suprime até à raiz todos os sinais de esmero linguístico” (FARINACCI, citando Rubens Figueiredo sobre Sexo)

“recurso de mediação literária tão inaparente quanto sofisticado”: “simula uma isenção completa da arte literária” (FARINACCI)

prosa saturadíssima de lugares-comuns, “exploração literária do clichê” (clichê como ‘engessamento da linguagem’)

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“façanha na tradição do realismo”; “falso realismo” (FARINACCI)

“Seria enganoso, entretanto, supor que estamos diante de uma ‘cópia’ que se pretenderia fiel à realidade social preexistente. O efeito provocado pelo romance de ‘expressão mais direta possível das vozes de sua época’ é exatamente um efeito literário. O realismo de Sexo não se restringe à reprodução dos clichês urbanos; mas antes cola-os à página de modo enviesado, distanciando-se – criticamente – deles. (FARINACCI)

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“Os textos de André Sant’Anna se desdobram em tiques progressivos. A imbecilidade das repetições do texto é o ataque mais veemente à imbecilidade da realidade demagógica e hipócrita que ele descreve. […] A criação dessa língua débil mental, que se inspira de uma maneira perversa nos lugares-comuns da mídia e nas pesquisas de comportamento, joga uma luz irritada sobre o processo de imbecilização passiva a que nos prestamos diariamente. E o mais terrível -e genial- é que termina nos matando de rir.” (Bernardo Carvalho, “Nem o Sexo Salva”, 1999)

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início de Sexo (1999), a partir de DIAS, “Violência e Miséria Simbólica”, p. 5-6 e p. 11-12:

– a citação dos primeiros parágrafos do romance como metonímia do livro, e o elevador como metáfora da cidade contemporânea.

– de perífrase (como singularizador, em Homero) a paráfrase (porque as denominações dos outros personagens são desdobradas a partir da perífrase inicial) (p. 8)

PERÍFRASE (= “circunlóquio” – uso excessivo de palavras; sequência de palavras em lugar de um termo específico): “designação de alguém por construção que dê relevo a uma de suas qualidades”.

PARÁFRASE: “modo diverso de expressar frase ou texto sem que se altere o significado da primeira versão”.

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