AULA 17 (20/04) – MARCELO MIRISOLA (4) – EXCERTOS CRÍTICOS SOBRE MIRISOLA

SÁ. Sérgio Araújo de. A reinvenção do escritor: literatura e mass media. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2007. p. 86-106.

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um autor [Mirisola] que vem diretamente da cultura midiática, cresce aí e não nega essa “origem”. Ao contrário, coloca em cena essa ruptura de base. / Como renegar um legado cultural? As imagens depositadas na memória vêm ao texto como párias

Mirisola dispara contra o bom gosto. Principalmente contra o suposto bom gosto das gerações que cresceram dentro de shopping centers ou vendo televisão, o que dá na mesma. O caso é que se deixaram ficar estúpidas. Tipo assim (sic), a nível de (sic) comparação: os que vão estar frequentando (sic) casa de Big Brother Brasil […]

[MM] age em texto como se fosse uma Clarice Lispector escrotinha, a Clarice que nos cabe na virada do século XXI,

Elementos midiáticos são as linhas mestras da noção delineada. E uma certa literatura seria mera reprodutora desses discursos, sem criticá-los. É a literatura que está fora desta análise, a literatura mainstream, capaz de fazer a manutenção dos aparelhos desideologizados do Estado.

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três vertentes literárias contemporaneamente na Argentina:

1) narrativas “mal escritas” de propósito, como contraponto ao beletrismo e a uma “prosa funcional ‘de mercado’”. Esta infraliteratura […];

2) hiperliteratura. Trata-se de uma “insubordinação estética” a partir de uma performance literária que se quer perfeita ao extremo;

3) paraliteratura, que se coloca entre os dois extremos anteriores. Nem o antiartístico nem o ultra-artístico. Tampouco o meio-termo fundado na angústia da ambiguidade. Aqui o equilíbrio baseia-se no conteúdo que deixa todos felizes e satisfeitos. Esta alternativa assemelha-se ao que a ensaísta Beatriz Sarlo classifica como quality literature – literatura de qualidade. O famoso “não fede nem cheira”. Agrada ao bom gosto reinante. Lixo orgânico. [Galera?]

O lugar do texto de Mirisola é entre o “hiper” e o “infra”, mas não o do “para”. Há alta consciência literária com cara de desleixo. Mirisola dá tratamento literário aos restos midiáticos.

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O azul do filho morto é a primeira biografia da geração criada diante da tevê. O narrador é filho direto da indústria cultural. Viu muita televisão.

Seguramente, o método de Mirisola não é o da paródia feita na clave da “diversión blasée del intelectual que es ajeno y se siente superior al mundo representado, o que lo visita como turista”.

[Manuel da Costa Pinto:] “O estilo sincopado, com frases de alta voltagem erótica e um ritmo hipnotizante, já garantiria a Mirisola um lugar de destaque na nova literatura brasileira, ao lado de outros cronistas da degradação urbana como Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Marcelino Freire e Ronaldo Bressane. Mas Mirisola vai bem além desse registro realista.”

O narrador é extremamente consciente do lixo acumulado na memória. E mais: sabe de seu caráter ficcional. “Eu não acredito em lembranças. Mas em fingimentos, isto sim.” / O azul do filho morto é como uma pilha de dejetos. A enumeração de porcarias a que o narrador foi submetido em sua formação […]

Ele representa o contrário do que deseja o bom-mocismo da comunicação absoluta para as massas.

Não basta mais apenas saber ler literatura. É preciso ler mídia.

Mas ele fala não de um lugar abstrato, e sim como filho de uma burguesia que sucumbiu à cultura de massa e ao terror econômico.

A mídia propõe às pessoas uma documentação que passa pouco pela linguagem, que se preocupa com um arranjo cômodo do significante […].

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