AULA 16B – MARCELO MIRISOLA (3) – EXCERTOS CRÍTICOS SOBRE MIRISOLA

Com meu avô, aprendi a ser um racista generoso e sentimental.

(MM, O azul do filho morto, citado em SCHEEL, 2009).

 

[Em] “O azul do filho morto […]: es en un día de cielo azul cuando Mirisola niño experimenta la muerte de una chica que ha saltado del séptimo piso de su edificio al vacío y esa imagen, junto con el color azul, será una presencia constante cuando el narrador quiera mostrar su desencanto con la sociedad o la idea de la muerte. (ARRIETA DOMINGUEZ, 2015, p. 113)

“Analizando dicho libro de crónicas, Oliveira (2010: 91) explica que «Mirisola autoficcionaliza-se a tal ponto que parece perder a sua identidade enquanto pessoa física, deixando seus leitores sempre na dúvida sobre quem fala, seja na sua ficção, nas crônicas ou ainda nas entrevistas». [… Assim,] continuamos examinando su obra como vida y su vida como obra (ARRIETA DOMINGUÉZ, final)

*

Mirisola é “um dos escritores contemporâneos mais regulares – tanto em termos de publicação quanto de fidelidade temática, estilística e formal – pois suas narrativas estão, desde o início, carregadas sobremaneira desse conflito cego, dessa tendência em pôr a nu as misérias, os excessos e os desesperos do indivíduo moderno.” (SCHEEL, 2009)

“Marcelo Mirisola pode ser considerado um autor da denúncia, que procura demonstrar certas imposturas da sociedade e da vida, sobretudo da vida burguesa, que permanecem encobertas graças a um tipo de ideologia da dissimulação.” (SCHEEL, 2009)

“a desagregação do discurso ficcional, sua natureza fragmentária e dispersiva, tem origem numa escritura que estabelece, de forma consciente, a imagem de um sujeito dilacerado – o escritor – que se deixa assinalar na obra como o próprio autor” (SCHEEL, 2009)

 

“a história vai sendo contada aos solavancos.” (AZEVEDO, 2007)

“prosa espasmódica, nas palavras de Manuel da Costa Pinto, como um ‘maciço verbal de puro horror, que reverbera a asfixia da vida de classe média’” (SCHEEL, 2009)

 

“[…] o obrigam a se reconhecer como parte de uma família que despreza e como sujeito de uma existência arruinada, marcada pelos vícios de classe – uma classe média amesquinhada, estúpida, cuja formação cultural é o resultado da exposição corrosiva às influências da TV, da mídia e dos valores associados aos ídolos e celebridades de barro da indústria cultural, da moda e do mercado” (SCHEEL, 2009)

“símbolos televisivos que o narrador despreza, mas dos quais não pode se libertar.” (SCHEEL, 2009)

 

“Marcelo Mirisola faz uma literatura do mal-estar, em que a tônica é a sensação de vertigem que sofremos ao mergulharmos de cabeça num mundo de frustrações, desesperos e misérias, em que a vítima constante, além do próprio narrador, é essa classe média esvaziada de sentidos ou valores, subproduto da indústria cultural, da mídia, do shopping center e da publicidade, refém de ícones midiáticos.” (SCHEEL, 2009)

 

“Uma literatura violenta e agressiva, em que o sexo transparece como o componente mais patético e frustrante de nossa alma minúscula, amesquinhada”. (SCHEEL, 2009)

“[A narrativa de Mirisola] aponta para ‘a repetição obsessiva de um vocabulário que, se arranjado de outro modo, constituiria uma possível intenção pornográfica’ (LÍSIAS, 2005, p. 108-109), mas que, na verdade, ‘do jeito como as peças estão dispostas, porém, temos apenas a enumeração inconclusa de genitálias e alguns dados que transformam o que se anunciava como sexo em uma espécie de negociação falha e mesquinha entre dois corpos’ (LÍSIAS, 2005, p. 108-109). Assim, o que poderia ser tomado como um excesso de naturalismo que determinaria a prosa de Marcelo Mirisola não passa de mais um ardil de que seus narradores se valem para sugerir um efeito de real que tem, em seus fundamentos, o propósito de desarticular justamente a noção de realidade e de realismo.” (SCHEEL, 2009)

 

“Na verdade, os preconceitos de Mirisola, de seu narrador-personagem em busca de si mesmo, de sua compreensão mais funda, são os mesmos preconceitos que nos servem como tecido e justificativa. A diferença é que Mirisola não aceita impunemente as máscaras de uma impostura vulgar, que finge, mente ou disfarça qualquer vilania diante do mundo e da vida. Ao contrário, é dos sentimentos e das sensações exacerbadas de seu narrador que surge a possibilidade do reconhecimento, da revelação, da descoberta terrível e espantosa de que todos nós temos uma dimensão obscura na qual cultivamos frustrações, infelicidades, angústias e preconceitos irreconciliáveis.” (SCHEEL, 2009)

*

“Talvez seja possível arriscar a hipótese de que a função-autor na contemporaneidade pode estar se deslocando para ocupar uma nova posição, entendida como efeito de um gesto performático que imbrica a noção de autor, de narrador e as inúmeras vozes-personagens-tipos das narrativas. A performance é a estratégia que caracteriza a função-autor dos textos da literatura contemporânea.

“O modo de atuação da performance autoral é exercer-se na ambiguidade que lhe é inerente, ainda suscitando a referência à figura do autor: quem realmente está falando, é o autor ou um outro? Está sendo sincero ou farsante? Essas são suas opiniões ou falas recortadas de uma origem inidentificável? No entanto, essas questões não podem mais ser decididas.” (AZEVEDO, 2007)

 

“[A] encenação vai direto às imagens pré-fabricadas, divertindo-se com a pasteurização, ‘devorando’ o presente, e concretiza-se através da exposição cínica de uma voz que esquadrinha os aspectos mais conflitivos, reificantes e violentos da realidade.

“Os alvos preferidos podem ser a avassaladora homogeneidade provocada pelos media ou ainda a naturalização de uma postura politicamente incorreta que se regozija com a verve preconceituosamente racista e excludente.” (AZEVEDO, 2007)

“[…] antropofagizar a banalidade do cotidiano.” (AZEVEDO, 2007)

 

“A operação de travestismo efetiva-se pela simulação das imposturas, pela encarnação dos preconceitos e lugares comuns assumidos como atitudes próprias da persona narrativa, fazendo, assim, o jogo do inimigo. A ambivalência da postura satírica atualizada reside na indefinição sobre o papel do seu gesto enquanto ruptura ou confirmação dos valores estabelecidos. A decisão hermenêutica fica nas mãos de quem termina o ato: entender a performance como a confirmação fetichista da realidade mimetizada ou como postura crítico-reflexiva.” (AZEVEDO, 2007)

 

“Segundo a lição adorniana, conservar a herança realista significaria a cumplicidade da forma artística com a ideologia, o erro, o engano […]

“Pelo trabalho com a linguagem seria possível perturbar a tranquilidade do leitor, estabelecer uma dissonância quanto a sua atitude desinteressada de ler apenas um bom livro, desviar-se do realismo, para expor de modo mais visceral, ‘a negatividade do positivo’” (AZEVEDO, 2007)

 

“A agressividade da escatologia verbal é uma das principais características da sua literatura de entraves e a composição dos tipos classe-média que transbordam de sua ficção, um ingrediente a mais da cena estilizada do seu texto. A ambiguidade da postura que faz o narrador performar vozes preconceituosas aparece na crítica ao universo auto-ajuda, ao estilo-shopping-de-vida, ao imaginário televisivo da classe média permeados pelo ceticismo e pelo deboche. Seu repertório literário é marcado pela hiperbolização das condutas: sexo exagerado e desregrado, violência gratuita, uma persona narrativa que performa preconceitos e atitudes politicamente incorretas (misoginia, racismo, etc.). Tudo encenado por uma sintaxe arrevesada, associações disparatadas capazes de combinar em um mesmo parágrafo a tonalidade dos esmaltes Marú e uma referência ao Aleph de Borges.” (AZEVEDO, 2007)

 

O contexto da violência retórica da literatura de Marcelo Mirisola é o de uma sociedade automatizada pela naturalização da mediocridade.” (AZEVEDO, 2007)

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