AULA 16 (18/04) – MARCELO MIRISOLA (2) – EXCERTOS DE ‘HOSANA NA SARJETA’

(Boate Kilt, em São Paulo, na frente da qual MM conheceu Paulinha Denise. Foi demolida em setembro de 2012 – o romance de Mirisola se passa entre o final de 2011 e o começo do ano seguinte)

.

Alguns trechos de Hosana na Sarjeta (2014), organizados tematicamente:

.

“A palavra incorporar não é gratuita.” (p. 12-13) [para descrever Paulinha Denise]

“Paula Denise, a mulher de verdade” (64)

“[Paulinha] se tratava de uma mulher de verdade, brega, mas de verdade.” (66)

.

“Ariela mentia. Ariela era uma mentira ambulante, tudo nela era mentira, mas não era falso. […] Tudo mentira. / Tudo menos o beijo. […] / Era como se Ariela beijasse Ariela, e eu estivesse me beijando. […] Um beijo egoísta de dois egoístas” (24).

“[Ariela] destruiu toda a mentira compartilhada que havia nos levado ao primeiro beijo – ela me traiu até na mentira. Trair a própria mentira é chegar à verdade pelo avesso.” (52)

“Para resumir, até hoje não sei se me apaixonei pela mulher [Ariela] ou pela mentira, ou vice-versa. Que diferença faz?” (35)

“Eu […] sabia que não sentiria falta do beijo de Ariela. Mas do beijo dado em mim mesmo.” (53)

.

“A ligação com o mundo terreno – vamos chamar assim ‘mundo terreno’ de Paulinha – alegrava meu coração cético e cansado de pessimismo.” (20)

X

“Ariela era o contrário, o oposto vertiginoso de Paulinha. Um compêndio de todos os meus pontos fracos. O que havia de pior em mim.” (23)

X

“Tanto Paulinha como Ariela eram de verdade, carne e osso, ovários e úteros, […] portanto entendi que era uma bobagem atribuir a realidade a uma, e a ficção, a outra. Eu é quem oscilava nesse terreno, e não elas.” (31)

.

“Traí Paula Denise. […] mas sobretudo traí o real que – depois de quase trinta anos – começava a ocupar o lugar do furtivo, do virtual, da maldita ficção que arruinara minha vida até aquele momento.” (25-26)

“Qualquer merda para não ter de assumir que, no final das contas, eu era um cara decente e que toda aquela merda de literatura não passava de um lapso na minha vida, um lapso que se prolongava desde 1989, e que, agora, teria fim na barriga de Paulinha. / Ah, imaginei recuperar meu Creci, raspar a barba à la Rasputin, e me inscrever nalgum trabalho voluntário ligado à adoção de cães ou crianças de rua […]” (31-32)

“E, além da ressaca de merda de bisão destilada, uma ressaca de realidade que nos acuava a cada segundo.” (110)

[depois de ter contado, por telefone, que traía PD:] “Não vou dizer que não me senti aliviado, afinal eu havia me reconciliado com o canalha seminal, o escritor ególatra de sempre.” (26)

“Bastava repetir o procedimento de praxe. Bastava enganar Paulinha. Bastava seguir minha vocação. Eu era um especialista em volteios, a mentira corria solta no meu sangue.” (104)

No final da estória, MM e Brecão imaginam as possibilidades mais inverossímeis para explicar ao delegado o que teria acontecido com Paulinha Denise, esquecendo que poderiam simplesmente dizer a verdade, que “depois da briga de casal, ela subiu num táxi no dia 6 de janeiro, às 10 horas da manhã. E depois não teve mais notícias.” (116)

.

O NARRADOR (NARRADOR = PERSONAGEM = AUTOR?)

“MM” (113; 115)

“Miriguela” [como Brecão o chama]

“Francisnight, meu parceiro de forró, não conseguia me chamar pelo meu nome, Marcelo. Simples, Marcelo. Se fosse Maicon eu não teria tido problemas, então o xucro me chamava de ‘Paulista’”. (111)

“[…] Não bastasse, ainda deixaram Paula Denise comer baconzitos durante o voo. O leitor irá dizer: elitista, preconceituoso. Eu respondo: sou paulistano e conheço muito bem a Mongaguá que carrego dentro do peito, e sei com quem estou lidando.” (82)

.

O TEMPO DOS ACONTECIMENTOS

“Em menos de dois meses, eu havia me apaixonado por duas mulheres.” (121) [cap. 16, tempo do narrado = dois meses]

“Fazia quase um ano que ela disse que o nosso beijo não precisava de explicação” (125) [cap. 17, tempo do narrado = um ano]

.

O TÍTULO DO LIVRO

“o céu medonho de São Paulo significava Ariela nas alturas, ela era minha hosana poluída”. (34)

“Quem é que olha prum céu tão feio? Ela e o filhodaputa do meu diluidor olhavam pro céu medonho de São Paulo naquelas fotinhos nojentas. Minha hosana poluída é o caralho. Hosana na sarjeta.” (52)

.

O FINAL DA ESTÓRIA

[Paulinha com roupa de puta no início (X final do relacionamento, no RJ):]

“‘Porra, Paulinha, você podia maneirar com essas roupas de puta, né?

“No fundo, eu não estava nem aí. Em vez de ciúmes, ela me transmitia segurança nessas ocasiões, e felicidade. Paulinha enfeitiçava os homens […] e os fazia entender que eu era o macho dela.” (19)

.

“segundo meu irmão, [tucunaré] era peixe carnívoro e servia para controlar a população das tilápias.

“- Explica.

“É que as tilápias são chegadas num incesto e se reproduzem alucinadamente. Corriam o risco de atrofia, explicou-me. Os tucunarés comem as tilápias, entende?

“O mundo precisa de tucunarés, pensei.” (42)

“se eu não tivesse me transformado num homem-tilápia […]” (143, penúltimo parágrafo do livro)

.

HUMOR E JOGOS DE LINGUAGEM

.

– LER diálogo da p. 85-86, entre Brecão e MM

– LER do final da p. 18 à 19: o caso dos para-atletas

.

“no frigir da omelete” (121)

“Todo mundo ficava besta com ela, e eu… ah, eu comia.” (18)

“O tal do ‘de fundo nervoso’ me acalmou. Trocadilho besta, mas era uma chance real antes de ser um trocadilho.” (31)

“Confesso que fiquei um pouco chocado com a falta de sensibilidade e a objetividade que me faziam agir como um cambista do show do Fagner, e muito mais chocado com os jogos de palavras que elucubrava em minhas permutas mais canastronas. Mas, apesar das bijuterias que viravam pedras preciosas e vice-versa, descartei de imediato a possibilidade de ser ‘um monstro dos trocadilhos’. Um monstro não iria pedir arrego do jeito que pedi.” (64)

“Quer dizer, patetice interna, porque ninguém ficou sabendo que o caso era de amor eterno. Os joguinhos de palavras e trocadilhos persistiam, pensei em procurar dr. Reinaldo Moraes, mas entendi que dos males os trocadalhos eram os menores.” (65)

.

“admitir, enfim, que o anacoluto que eu maquinava tinha o nome mais bonito do mundo: Ariela.” (46)

[devido ao “hábito familiar”, à “mania de falar de uma coisa para chegar noutra, e somente depois voltar ao assunto inicial.” (45) “retórica enviesada que eu havia ajambrado para me enfiar na expedição [para o garimpo clandestino].” (46)]

anacoluto em “engraçado, nesse momento, lembrei do meu primeiro editor, assim meio desinteressado mas curioso, o tipo do cara que desdenha porque quer comprar, ele o bicho preguiça.” (86)

anacoluto: “‘o molho, diga para o dr. Schmidt Vasconcelos enfiar o molho no rabo […]’” (110)

.

enumerações

“Enfrentei apaches, anões canibais, testemunhas de Jeová, seringueiros do PSTU, mocinhos & bandidos de todas as espécies, sucuris gigantescas, onças, górgonas, ciclopes, elefantes… tudo isso pra você.” (63)

“[Ariela] o traía com motoboys, lésbicas curitibanas, guardas rodoviários, dobermanns, chefes de almoxarifados, tenistas, hare-krishnas e sushi-mans.” (53)

“Além de corrupto, ecologista e ladrão, o sogro era ciumento e possessivo.” (95)

“e o contrário disso é amor também, só que transformado em aversão, ódio, traição, nojo, afronta, ridículo, desespero e, no final, solidão.” (106) [gradação]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s