AULA 10 (23/03) – DIÁRIO DE BORDO – DANIEL GALERA (6) – A INTERNET E A LITERATURA, SEGUNDO GALERA

Começamos a aula utilizando o diagnóstico de Galera (abaixo) sobre as modificações que não teriam ocorrido na literatura devido à disseminação maciça da Internet nos últimos vinte anos. O autor é taxativo ao afirmar que ‘aquela nova literatura’, imaginada por muitos quando a Internet ainda dava seus primeiros passos em direção ao alastramento global na década de 1990, não se concretizou.

Associamos, ao momento presente, a determinação que a infraestrutura material de produção pôde provocar na superestrutura cultural, detectada por benjaminianos relativamente às transformações que a popularização do jornal no séc. XIX causou na história da literatura, p.ex., lembrando que a alfabetização digital de hoje não tem precedentes, denegando, assim, portanto, a tese principal de Galera. O que pretendemos fazer com outras falas do autor, inclusive manifestações suas a respeito de Meia-Noite e Vinte, mas também sua avaliação do conceito de ‘autoficção’ (prática, aliás, cuja expansão exponencial contemporaneamente está intimamente atrelada às tais modificações propiciadas pela Internet), com o objetivo de mostrar como, apesar de escritor ímpar e com toda razão muito celebrado, Galera não é teórico da literatura ou crítico literário.

*

“Com a popularização da internet, a literatura passará por uma revolução. O
romance morrerá e cederá espaço ao conto, que terá melhor aceitação para um
público com déficit de atenção, adaptado à velocidade das novas tecnologias. Mas
até mesmo o conto estará irreconhecível daqui a cinco ou dez anos, deformado
pelo impacto do hipertexto e dos novos suportes eletrônicos de publicação.
“O hipertexto — texto que explora o recurso do hiperlink, permitindo acesso
instantâneo a outras partes desse mesmo texto ou de outros textos e conteúdos —
enterrará a linearidade e quase todas as estruturas narrativas fundamentais
existentes hoje. Os múltiplos caminhos de leitura de “O jogo da amarelinha”
passarão a ser regra, ramificando-se para além dos limites físicos do livro de
papel. Os limites de um livro poderão ser um site, um conjunto de sites, a internet
inteira, o mundo inteiro. A participação do leitor não se reduzirá a virar páginas ou
a escolher onde clicar — ele poderá reescrever trechos, adicionar ou apagar
conteúdo, intervir de maneiras ainda não previstas. A figura do narrador, tão
tematizada e submetida a experiências na literatura pós-modernista, atingirá o
paroxismo; a autoria deixará aos poucos de fazer sentido, até ser abolida.
“A experiência de leitura na internet é fragmentada, uma alternância constante
entre vários tipos de texto, eles mesmos fragmentados. As tradições da prosa
literária, picotadas e embaralhadas, vicejarão no miniconto, no microconto, no
aforismo, nas tiradas irônicas, no trocadilho certeiro, na informação telegrafada.
“A nova narrativa será multimídia. Transitaremos livremente entre texto, voz,
música, vídeos, animações, fotos, ilustrações, diagramas. Todas as linguagens
existentes hoje serão uma só, e com ela virão novas formas de narrar, de insinuar
um subtexto, de construir elipses e significados.
“A linguagem escrita, por fim, e se tornará mais sucinta e veloz; novos jargões,
predomínio de siglas e contrações, emoticons, promiscuidade inédita entre
alfabetos e idiomas. A linguagem das crianças nos chats é um prenúncio da nova
linguagem literária.
“Descontando alguma pitadinha de sarcasmo, os cinco parágrafos acima
descrevem um conjunto de previsões que apareceram na virada do milênio, com o
surgimento e popularização da web, e vigoraram em muitos sites literários, artigos
de imprensa, discussões acadêmicas, e também na mente de muitos novos
autores motivados por preocupações formais. Parte delas sobrevive ainda hoje,
em versões mais diluídas ou atualizadas.
“A essa altura do campeonato, com um distanciamento de mais de década, já não
se pode ignorar que a “revolução literária causada pela internet” não ocorreu. Ou
até ocorreu, mas não no sentido de modificar a maneira como escrevemos.” (daniel galera – aquela nova literatura (o globo, 03/06/2013))

 

 

 

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