AULA 7b (14/03) – DIÁRIO DE BORDO – DANIEL GALERA (4) – O TEMPO DA NARRAÇÃO

Algumas resenhas do Meia-Noite e Vinte criticaram, em geral, o que foi percebido como tom exageradamente catastrofista-apocalíptico do romance [1]. Os personagens seriam, em 2014, época em que se passa a história, desiludidos, desesperançados; a cidade de Porto Alegre, espaço em que se passa quase todo o enredo, é apresentada desde o primeiro parágrafo como hostil à mera sobrevivência das pessoas, devido ao calor, às greves de serviços essenciais em curso etc.

No entanto, cremos que essa crítica se deveu a uma leitura apressada do material, e não reparou em algumas frases que, ainda que poucas, são essenciais para a compreensão do projeto literário do autor. Na verdade, não são dois os tempos contrapostos (2014 e 1999), mas três, pois o presente da narração ocorre em um período posterior aos fatos narrados de 2014. Ou seja, à época do assassinato de Duque, realmente os três narradores atravessavam crises pessoais muito intensas, mas essas crises foram ultrapassadas, não no período que vai de 01/02/2014 (o dia abrasivo de verão em que Aurora sabe da morte de Duque) a meados do mesmo ano (quando Aurora está já há alguns dias no sítio dos pais de Emiliano, curtindo o rigor do inverno gaúcho), mas entre este momento e o da narração ulterior, no qual Aurora conta em retrospecto os acontecimentos que se seguiram à morte do amigo, e isso é claramente indicado no livro, como consta no final deste post.

Aliás, no mesmo sentido em que os romances anteriores de Daniel Galera foram lidos como “romances de formação” (RESENDE, 2008; LEHNEN, 2013), também Meia-Noite e Vinte trata da transformação desses três personagens-narradores, que passam, de um estágio angustioso, especialmente depois da morte do quarto amigo, a um estado mais bem resolvido consigo mesma (Aurora), de corajosa abertura para o novo (Emiliano), ou de arrependimento e contrição pela vida que era bem-sucedida apenas na aparência (Antero). Como veremos em outra postagem, o único que não conseguiu tal auto-superação foi paradoxalmente aquele que era o herói de todos, e não por acaso é ele quem morre.

O argumento de que a narração do enredo ocorre tempos depois dos acontecimentos de 2014, e que sustenta, por conseguinte, a leitura de Meia-Noite e Vinte como romance de formação, revelando-o como livro nada niilista, muito pelo contrário, é corroborado por Galera, nem sempre o melhor intérprete dos seus próprios livros:

galera - entrevista tempo da narração

Extrair sentidos do tumulto: uma entrevista com Daniel Galera (02/11/2016)

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E os trechos do livro que têm passado despercebido a alguns, referidos acima, estão estrategicamente colocados no primeiro parágrafo do livro e na abertura do último capítulo, ambos narrados por Aurora:

[…] naquele final de janeiro, mas, se houve um antes e um depois, um marco entre a vida que parecia que eu iria ter e a vida que tive, esse marco foi a notícia de que o Andrei havia sido assassinado num assalto à mão armada, na noite anterior” (p.7)

Hoje sabemos bem o que nos aguardava, mas eu estava no escuro como todo mundo quando despertei naquela manhã [no sítio dos pais de Emiliano, inverno de 2014], aos primeiros indícios da alvorada.” (197)

(Além dessas duas passagens importantes, há pelo menos mais uma, também de Aurora, na pág. 15: “Na manhã em que fiquei sabendo [do assassinato do Andrei] […]”.)

Ou seja: a narração de Meia-Noite e Vinte, apesar de homodiegética, de forma alguma é “simultânea” (cf. REUTER, 2002, p. 88).

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