AULA 6 (09/03) – DIÁRIO DE BORDO – DANIEL GALERA (2) – REFERÊNCIAS À CULTURA POP EM “MEIA-NOITE E VINTE”

Começamos a leitura de ‘Meia-Noite e Vinte’ a partir dos níveis do conceito de ‘arqueologia’ (cf. FREUD. “A ‘Gradiva’ de Jensen”) que podem ser encontrados no romance; da questão da profissionalização do escritor na contemporaneidade, e sua relação com o Mercado e a Academia (MORICONI, 2006; AZEVEDO, 2015); e chamando a atenção para a (trans)formação por que passam os três personagens-narradores do livro (cf. LEHNEN, 2013), a qual, segundo nossa hipótese de trabalho, não teria ocorrido com Duque.

Aqui, por enquanto apenas a título de curiosidade ilustrativa, registramos algumas das menções dos personagens à cultura pop, a fim de futuramente distinguirmos  as diferenças que separam a sobriedade calculada desse tipo de informação no livro de Galera, da abundância desmedida das citações de Averbuck, por exemplo, que, além disso, menciona invariavelmente letras de músicas em inglês e nomes de bandas de rock norte-americanas que fazem sentido apenas para determinadas tribos que compartilham do mesmo gosto musical alternativo muito específico. (O que não tira, evidentemente, de forma alguma, nem um pouco do encanto e da força do Máquina de Pinball, mesmo para quem, como eu, não possui tais referências.)

Ater-nos-emos, então, somente aos três narradores e a Duque (deixando de lado o pai e a mãe de Aurora, por exemplo, com Simply Red e Nei Lisboa, respectivamente, ambos ouvidos pelo rádio, no começo do livro). Não estão incluídas também as inúmeras referências à Internet, tanto de seus primórdios da década de 1990, como as atuais, que serão todas objeto de outra listagem, assim como as citações de nomes do universo literário.

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A primeira referência que aparece é de Aurora, com “resquícios idiotas da época em que era o quarto da filha única”, aposento agora transformado em quarto de hóspedes, mas que mantinha ainda “coisas como um pôster de Johnny Depp e Wynona Ryder em Edward Mãos de Tesoura” (GALERA, 2016, p.18).

edward

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É Aurora também quem “Lia os exemplares da revista Superinteressante que meus pais assinaram para mim e queria ser como aqueles cientistas todos que estudavam hipercondutores e desenterravam dinossauros” (p. 29).

superinteressante 1

Qualquer leitor atual que fosse adolescente em 1987, certamente se lembra até hoje da capa da primeira edição da revista (que teve antes um ‘número zero’ gratuito, como estratégia de marketing), que chegava às bancas naquele momento com ótima credibilidade inclusive junto aos professores das escolas, que passaram a utilizá-la nas aulas, tendo se tornado uma das grandes novidades do ano, pois aliava assuntos realmente interessantes e curiosos tratados com leveza, e o rigor possível a uma revista de divulgação científica para a juventude.(A guardar, também, da fala de Aurora, a combinação que faz entre dinossauros e a novíssima tecnologia de então.)

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Na cena em que Emiliano encontra e assiste ao filme “meuvideo.mp4” – que desperta a lembrança dos nomes de arquivo de computador, que na época comportavam no máximo oito dígitos, sem acentuação – há pelo menos cinco referências musicais e cinematográficas explícitas (p. 61-69).

O vídeo de dois minutos e vinte de dois segundos (guardemos esse número), filmado por Duque e protagonizado por Antero, “verdadeira relíquia” dos anos noventa, pois sobreviveu, em um CD-RS, “à obsolescência das mídias físicas”, tinha como trilha sonora “uma faixa do primeiro disco da banda Low, uma balada de andamento sonolento e letra sucinta. ‘I’m sorry but I can’t hold on. It works much better if I let it drag me around.'”

No entanto, apesar de ser “um dos álbuns favoritos” de Emiliano, ele diz que “Na minha cabeça, era fácil desligar o volume e imaginar como trilha de fundo uma das clássicas músicas de foda dos anos noventa, como o trip-hop do Portishead, ou então a catarse de guitarras nos minutos finais de ‘Starla’ dos Smashing Pumpkins” (eu, que não conhecia nem a banda Low, nem Smashing Pumpkins, agradeço imensamente ao livro de Galera, que mas apresentou: gostei de cara e desde então tenho escutado bastante).

Logo a seguir, compara a postura de um dos atores do curta-metragem, à “sequência do julgamento no filme de The Wall, do Pink Floyd, quando o juiz se metamorfoseia numa gigantesca bunda bípede” (cena, em desenho animado, do filme de 1982, que é uma das mais emblemáticas, dentro da história da cultura pop, de zombaria contra o poder institucionalizado).

Já em relação ao filme em si, Emiliano avalia que embora alguém pudesse entendê-lo como pornográfico, argumenta que, ao contrário, “Havia uma leveza ingênua que também distanciava o vídeo de artefatos culturais semelhantes que se tornaram fenômenos pop e causaram choque anos depois, como ‘2 Girls 1 Cup'”.

(IMPORTANTE: não assista ao vídeo abaixo, ou, pelo menos, leia a descrição dele aqui ANTES, para saber do que se trata e decidir se quer ver mesmo isso. Não diga que não avisei!)

http://2girls1cup.ca/

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“Garagem Hermética, palco das festas do Orangotango” (p. 43) [o ‘Garagem’ foi uma famosa casa de shows meio underground, voltada para o rock, em Porto Alegre, inaugurada em 1992. Era nela que os colunistas do CardosOnline organizavam periodicamente grandes festas, “chamadas de Bailão do COL” (COLONETTI, 2010, p. 53)]

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No primeiro encontro de Emiliano com Duque, este vestia “uma camisa branca e um paletó de veludo marrom que destoavam no meio de camisetas com estampa dos Smiths, casaquinhos de flanela e coletes de couro. O encontro se deu numa das festas que ocorriam às sextas no Ocidente, com público predominante de gays, mas também com muitos héteros que gostavam de dançar Madonna, Duran Duran e Village People” (p. 71-72). [trecho do livro que passa completamente despercebido na primeira leitura, mas assume importância surpreendente após conhecermos o final da estória]

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Quanto a Antero, sua primeira referência musical no enredo, não por acaso, como teremos a chance de ver quando analisarmos o personagem, vem da indústria cultural pesada, e não da cultura pop dos anos 80 e 90: para fazer o filho de dois anos dormir, “coloquei-o no berço e fiquei cantarolando minha versão música de ninar dos sucessos de Claudinho e Buchecha, bem baixinho, até verificar que ele havia mergulhado fundo no lodo da inconsciência” (p. 90) [afinal, o que mais uma criança ouvindo seu pai cantarolar Claudinho e Buchecha poderia fazer senão mergulhar fundo “no lodo da inconsciência”…]

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Já na cena em que seu nariz sangra muito, durante a transa com Aurora no motel, é ela quem diz que “parece aquela cena de Coração Satânico” (p. 109), filme de 1987 de Alan Parker (aliás também o diretor de Pink Floyd – The Wall, citado acima por Emiliano) que é um cult de Terror, benquisto até por quem não é fã do gênero.

Antero concorda, “exultante, prendendo o nariz e erguendo um pouco a cabeça. Era uma boa cena, Mickey Rourke e a mulher do Lenny Kravitz, sangue chovendo do teto” (p. 109).

coração satânico

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Quando chega em casa depois de uma jornada de trabalho de mais de doze horas, Aurora assiste a “metade de um episódio de Med Men no notebook antes de adormecer babando no sofá” (119)

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Aurora e a profa. Vanessa cantam juntas, num caraoquê da Liberdade, “A Maçã”, de Raul Seixas. Logo depois, “um fortão de camiseta regata e calça militar cantava ‘Woman in Chains’ do Tears for Fears com uma desenvoltura chocante” (124)

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Aurora e Duque, depois de uma festa em 1999, vão bêbados de carro para a praia ouvindo “o primeiro disco da PJ Harvey. Ele dirigia um Del Rey cinza com bancos de couro cor de creme” (133)

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Emiliano tem um isqueiro “Zippo do Jack Daniels” (139)

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Game of Thrones (142)

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Paris, Texas (144) (e já havia citado Wim Wenders, na pág. 66)

paris texas

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“Depois de comprar um Playstation 3, Duque tinha ficado um mês e meio viciado num jogo de RPG chamado Skyrim. Jogava pelo menos seis horas por dia, todos os dias, até que, urrando que não conseguia fazer mais nada, guardou o console de volta na caixa e nunca mais encostou nele.” (157)

Depois também de muitos anos por fora dos videogames, baixei o tal de Skyrim para ver como era, o que teria interessado tanto ao personagem. Aconteceu comigo a mesma coisa que com ele, passei boa parte das férias grudado no jogo, imerso (como se diz no jargão) na narrativa por horas seguidas, a ponto de me sentir um vazio nostálgico quando acabaram as missões. Em virtude do jogo, meu padrão de leitura regular de literatura diminuiu consideravelmente no período, do que não me arrependi, pois a prática, além da diversão proporcionada e da redescoberta desse universo dos games, suscitou questões teóricas de relações convergentes e divergentes entre os dois campos (exploradas especialmente nos ensaios de Daniel Galera e de Simone Campos, anexados aqui no blog), além de revelar algumas referências mais ou menos ocultas no romance de Galera, possibilitando sua melhor compreensão.

Abaixo segue um pequeno trailer de uma das mais interessantes histórias do jogo, um mod (um extra) criado gratuitamente por fãs, que não faz parte do conteúdo original lançado pela empresa. Envolve viagens no tempo, difíceis escolhas morais, e muita reflexão antes de agir.

Skyrim – The Forgotten City

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Atari e Odyssey (166)

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Emiliano: “Antero me chamava [na época do Orangotango] de Kátia Flávia, porque me achava parecido com o Fausto Fawcett.” (177)

fausto fawcett

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Emiliano: “Manfredo, por exemplo, tinha postado vídeos do Youtube com músicas do Bonnie ‘Prince’ Billy e Apanhador Só, com comentários carentes que eram indiretas pra mim. Dei like em todos.” (179)

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Emiliano: “Francine poderia ter sido uma replicante em Blade Runner.” (194)

blade runner

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